Qual o papel dos pais na educação antirracista?

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A voz dos pais importa e é essencial para evitar o racismo infantil

Recentemente, fui surpreendida por uma senhora idosa enquanto passeava com meu filho. Estávamos no playground do nosso prédio quando ela me perguntou: há quanto tempo a senhora cuida desse menino? Em tom leve e respeitoso, respondi: desde que ele saiu da minha barriga. Infelizmente, situações como essa têm sido muito comuns nesta fase da minha vida de mãe de um menino de pele branca. 

Não posso negar que é algo que me incomoda, porque eu estaria mentindo. Mas, na verdade, minha maior preocupação mesmo é como o meu filho vai reagir a comportamentos racistas como esse quando ele começar a entender as coisas e qual será o meu papel na construção antirracista dele. Na semana do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, comemorados no Brasil em 20 de novembro, trago uma importante reflexão para todos nós. Qual o papel dos pais na educação antirracista? 

Sou negra e sempre estudei em escola particular tradicional, onde sofri na pele diversas situações racistas. Não gosto de falar sobre essa época porque é muito difícil recordar as inúmeras cenas excludentes que vivenciei, muitas vezes sem compartilhar o acontecido em casa com meus pais.

Prefiro aproveitar essa oportunidade para trazer um recado importante: é urgente e imprescindível que todos os pais tragam a luta antirracista para dentro de casa, sejam eles de pele branca ou negra. Não falar sobre o assunto com seus filhos é um erro enorme, uma vez que os comportamentos racistas sempre existirão fora dos nossos lares e as nossas crianças precisam ser educadas a reagir a eles, seja para se defender ou para apoiar outro coleguinha que esteja sendo agredido. Mas, como fazer isso? 

Compartilho com você algumas reflexões pessoais sobre o assunto que podem nos ajudar nessa caminhada.

Traga a discussão para dentro de casa

Crianças não nascem racistas, elas são induzidas a esse comportamento a partir da observação. Por isso, considero importante o papel dos pais nesse processo. Na verdade, acredito que essa orientação precisa começar em casa, passar pelo ambiente escolar e ultrapassar outras fronteiras. 

E tem mais: as crianças pretas precisam de orientação, assim como as brancas. Então, que tal conversar com seus filhos sobre o assunto tenha ele – e você – a cor de pele que tiver? 

Dê o exemplo e ensine seus filhos a conviver com a diferença

Por que não explicar hoje mesmo para eles que as pessoas são diferentes, que temos amigos brancos, pretos, indígenas e é isso que nos caracteriza, que vivemos em um país plural e precisamos respeitar as diferenças? 

Observar as atitudes do seu filho e dar o exemplo é muito importante, porque as crianças espelham as atitudes dos seus pais. Diversos estudos e especialistas reforçam que crianças se inspiram nos adultos para formar a personalidade e os traços psicológicos. Por isso o exemplo é tão decisivo para a mudança de comportamentos e para evitar más influências. 

Mostre a diversidade e inclua isso no cotidiano da criança

No caso de crianças brancas, por exemplo, os pais podem contribuir muito com esse processo de mudança com ações simples e direcionadas. Podem comprar bonecas de vários tons de pele, mostrar que temos super-heróis negros, falar sobre a história do Brasil e mostrar a variedade de lendas e personagens negros e brancos no folclore brasileiro e reforçar a luta dos negros e indígenas ao longo da nossa história. 

Estimule a reflexão sobre o assunto e desenvolva a empatia 

Atividades familiares também podem estimular as crianças a pensar sobre o assunto com naturalidade. É possível criar apresentações com fantoches e desenvolver outras atividades educativas para serem realizadas com os amigos. Outra possibilidade é de sempre perguntar aos filhos se existem coleguinhas e professores pretos no colégio e questioná-los se seria legal se todos pudessem ter amigos na escola de várias cores ou sobre como seria ruim se os colegas falassem mal do seu cabelo ou brincassem com a sua cor ou falassem mal da sua família só porque ela é diferente da sua. Enfim, levar para dentro de casa essa discussão de uma maneira natural, sempre considerando a idade da criança. 

Reforce a beleza das suas origens

No caso de pais de crianças pretas, além das ações já citadas, também é possível empoderar a cultura preta, promover diálogos sobre o assunto, apresentar pessoas de destaque na luta contra o racismo, orientar sobre como responder a comentários racistas, entre outras atitudes.

Promova conversas que afastem a intolerância 

Oferecer um local de discussão dentro de casa e oportunizar momentos de escuta é um bom caminho. As crianças são curiosas e sempre querem saber o porquê das coisas. Enquanto pais, precisamos assumir a responsabilidade de combater o racismo e mudar essa triste realidade que muitas crianças pretas, assim como eu, sofreram e sofrem dentro das escolas, nos parquinhos e em tantos outros lugares desse país miscigenado em que vivemos. Afinal de contas, sabemos que o combate ao racismo estrutural é um desafio, mas não é impossível. 

Que tal começar agora mesmo a incluir essa discussão com seus filhos e combater qualquer forma de discriminação, seja o racismo, o machismo, a homofobia e tantas outras formas de preconceito? Vamos pôr um fim à invisibilidade que o nosso país impõe às pessoas pretas, mobilizando nossa família, amigos e todas as pessoas que conhecemos. O antirracismo não é uma luta exclusiva dos pretos, ele é uma responsabilidade de toda a sociedade.

Por fim, como disse Nelson Mandela, “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

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Fernanda Matos é assessora de imprensa no Conversa Estratégias de Comunicação Integrada

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